A história dos Desbravadores: no mundo e no Rio Grande do Sul


Origem nos Estados Unidos: Os Primeiros Passos do Sonho

No início do século XX, a Igreja Adventista do Sétimo Dia percebeu a necessidade de manter seus jovens ativos na fé. Em 1907, foi criado o Departamento de Missionários Voluntários (MV), liderado pelo pastor Milton Early Kern. Ele organizou os primeiros programas voltados especificamente para juvenis. Em 1911, surgiram três pequenos clubes experimentais em Takoma Park (Maryland, EUA): Scouts Missions, Woodland Clan & Pals e Takoma Indians. Esses grupos de meninos, inspirados no escotismo tradicional, buscavam unir aventuras com ensino de valores cristãos.

Em 1919, o pastor Arthur Spalding fundou o clube "Escoteiros Missionários" no Tennessee, delineando diretrizes espirituais claras para os clubes juvenis. A semente cresceu, e em 1926, o pastor Grover Fattic, então Secretário de Jovens da Associação do Leste de Michigan, sentiu no coração o chamado para organizar um acampamento de verão para juvenis. Sua proposta foi negada diversas vezes pela administração da Associação. Mesmo assim, Fattic não desistiu. Finalmente, após insistir com fé e coragem, recebeu permissão para realizar o acampamento, contanto que ele mesmo arcasse com todas as despesas. Sem recursos da igreja, mas com determinação inabalável, ele arrecadou US$ 200 com dois membros, convidou o pastor Gordon Smith para auxiliá-lo e encontrou um local à beira do Lago Town Line, em meio à natureza intocada.

Lago Town Line

O local escolhido não tinha nenhuma estrutura: apenas uma velha cabana serviria como cozinha improvisada. Sem barracas, sem banheiros, sem dormitórios, e com um desafio ainda maior: transportar tudo até lá. Mesmo diante disso, Fattic não se intimidou. Movido por fé, foi até o presidente da Associação, Pr. J. F. Piper, pedir humildemente as tendas de evangelismo da igreja. Seu pedido emocionado foi atendido: além das tendas, recebeu um caminhão para o transporte.

Durante o trajeto, o caminhão atolou duas vezes. A equipe precisou descarregar tudo, desatolar, recarregar e seguir em frente. Ao chegarem ao local, alguns pais se assustaram com a precariedade e levaram seus filhos de volta. Restaram apenas 18 garotos. Ainda assim, Fattic seguiu com o plano. Montaram as tendas com a ajuda de agricultores locais que doaram alimentos e ajudaram na estrutura.

O acampamento, apesar das dificuldades, foi extraordinário. Os meninos exploraram a floresta, nadaram no lago e viveram experiências marcantes. Em um momento crítico, uma nuvem de mosquitos ameaçou o acampamento. Então, os meninos se ajoelharam e oraram – e os mosquitos, milagrosamente, se afastaram. Em outra ocasião, três garotos desapareceram. Após horas de angústia, Fattic os encontrou sãos e salvos, deitados sob uma moita de amoras, felizes e empanturrados.

Registro fotográfico do Acampamento do Pr. Fattic

Esse primeiro acampamento entrou para a história. A coragem de Fattic inspirou outros líderes. Pouco tempo depois, surgiriam novos acampamentos, como o de Julian, liderado por Guy Mann, John MacKin e o pastor L. A. Skinner. Foi ali, nesse ambiente de pioneirismo, oração e superação, que os ideais do Clube de Desbravadores começaram a ganhar forma e nome.

Em 1929, pela primeira vez o nome “Pathfinder” (Desbravador) foi usado num acampamento adventista na Califórnia. E em 1930, Theron Johnston organizou um clube chamado “Desbravadores” em sua casa em Santa Ana, Califórnia – embora sem apoio institucional, a ideia ficou registrada. Já na década de 1940, a Associação do Sudoeste da Califórnia chamou seu acampamento de "Acampamento de Desbravadores Jovens Missionários Voluntários", e o pastor Laurence Skinner organizou o clube "Locomotiva".

Foi em 1946 que o clube começou a tomar corpo com a liderança do pastor John Hancock, diretor de jovens da mesma associação. Ele desenhou o emblema em formato triangular e utilizou o nome já presente nos acampamentos. Em 1947, a Associação Geral pediu à União do Pacífico que desenvolvesse a organização do Clube de Desbravadores, liderada pelo Pr. J. R. Nelson. Em 1949, foi escrito o primeiro manual por Lawrence Paulson, e o Pr. Henry Berg compôs o Hino dos Desbravadores. Finalmente, em 1950, o Clube de Desbravadores foi oficialmente adotado como programa mundial da Igreja Adventista. Em 1952, o hino foi oficializado, consolidando os símbolos e propósitos do ministério juvenil que até hoje inspira milhares de jovens.

Enquanto nos Estados Unidos os clubes eram chamados de Pathfinder, cada país adotou um nome na língua local – e foi assim que chegou até nós a palavra “Desbravadores” no Brasil. O programa era o mesmo em qualquer lugar: reunir meninos e meninas de 10 a 15 anos para desenvolver habilidades, serviço à comunidade, amor à natureza e, acima de tudo, fortalecer a fé em Deus., cada país adotou um nome na língua local – e foi assim que chegou até nós a palavra “Desbravadores” no Brasil. O programa era o mesmo em qualquer lugar: reunir meninos e meninas de 10 a 15 anos para desenvolver habilidades, serviço à comunidade, amor à natureza e, acima de tudo, fortalecer a fé em Deus.

Pioneiros na América do Sul: O Primeiro Clube e a Visão Missionária


Com a oficialização global dos Desbravadores em 1950, a chama aventurosa rapidamente se espalhou pela América do Sul. O primeiro clube sul-americano surgiu em 
1955, no Peru, com o Clube “Conquistadores” em Lima, fundado pelo casal Nercida e Armando Ruiz. Logo o movimento chegou ao Brasil. 

Pr. Jairo Tavares de Araújo

No final dos anos 1950, o pastor brasileiro Jairo Tavares de Araújo, líder jovem da Divisão Sul-Americana, incentivou a abertura de clubes por aqui, distribuindo um manual de como organizar Desbravadores. Em consequência, 1959 viu nascer os primeiros Clubes de Desbravadores do Brasil. Nesse ano, o Pr. Henry Feyerabend, missionário canadense radicado em Santa Catarina, fundou sete clubes no sul do Brasil (entre 1959 e 1960) usando materiais que trouxera em inglês. O pioneiro foi o Clube Vigilantes, aberto em Lajeado Baixo (SC), cujo primeiro diretor foi Haroldo Fückner. 

Pr. Henry Feyerabend

Simultaneamente, em São Paulo, jovens adventistas de Ribeirão Preto iniciaram em 1959 o Clube Pioneiros – oficializado em 1961 pelo Pr. Wilson Sarli, então departamental de jovens, que trouxe os lenços, insígnias, o voto e a lei para estruturar o clube na forma padrão. Rapidamente, outras regiões do Brasil abraçaram o ministério: em poucos anos já havia clubes em Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e vários estados, todos unidos pelos mesmos ideais e pelo triângulo emblemático dos Desbravadores.


Pr. Wilson Sarli


Desenvolvimento no Rio Grande do Sul: Raízes Profundas

O Rio Grande do Sul foi um dos que abraçou o ministério. Igrejas de várias cidades criaram seus clubes, e em 1975 o estado sediou o primeiro Campori oficial do Brasil, realizado de 14 a 16 de novembro na localidade de Campestre, atual município de Santo Antônio da Patrulha. O evento contou com a participação de aproximadamente 300 desbravadores vindos de diversas regiões do país.

Conforme matéria publicada na época no periódico "Revista Adventista" (dezembro de 1975), o encontro foi organizado pela então Associação Sul-Rio-Grandense (ASR), sob liderança do pastor José Maria Barbosa, com apoio do pastor Jason McCraken. O evento contou com cerca de 300 participantes e teve ordem unida, especialidades e muita comunhão, marcando o início de uma nova fase para o ministério dos Desbravadores no Brasil. (Leia a matéria aqui)

O começo dos Clubes no Rio Grande do Sul

As raízes do Clube de Desbravadores remontam a 1960, quando a Igreja Central de Porto Alegre — então localizada na Av. General Vitorino, 77 — fundou o pioneiro Clube "Cruzeiro do Sul". Sob a liderança de Miguel Braga, com o apoio fundamental de Pedro Mattos, Flávio Reis e Adelina Kohller, o grupo marcou época ao realizar seu primeiro acampamento em 1961, no Parque Saint-Hilaire (Viamão).

Ao longo das décadas, a agremiação da Igreja Central passou por reformulações e mudanças de identidade. Foi batizada como Pioneiro Gaúcho em 1964, sob a direção de Paulo Rui Barbosa, e Ebenézer em 1981. A consolidação definitiva veio em 1986, já no endereço atual da Igreja (Av. Aureliano de Figueiredo Pinto,) quando o clube adotou o nome "Calebe", que permanece ativo até hoje.

O movimento ganhou força e em 1963, fruto de um evangelismo liderado pelo Pr. Deicula Reis no bairro Camaquã, Pedro Mattos e o Tenente do Exército Luis Telles fundaram oficialmente o Clube Minuano que começou com somente uma unidade masculina. O marco de fundação, em 3 de março de 1963, deu início a uma história que já dura décadas.

Dali em diante, o Rio Grande do Sul viu o movimento florescer. Do oeste, com o clube "Três Fronteiras" (1963) em Uruguaiana, ao sul, com o Clube Condor (1965) em Pelotas. Este último, guiado pelo Pr. Levy Silveira, não apenas estabeleceu uma base sólida na Escola Adventista de Pelotas, mas serviu como mentor para a fundação de diversos outros clubes na região, consolidando o propósito dos Desbravadores em solo gaúcho.

Legado e Inspiração

Ao longo das décadas, o Rio Grande do Sul viu seus Desbravadores e Aventureiros multiplicarem-se e influenciar milhares de vidas. A estrutura da igreja no estado também se expandiu: a ASR (com sede em Porto Alegre inaugurada em 1971) deu origem a novas sedes administrativas conforme o número de membros crescia. Recentemente, a Associação Sul-Rio-Grandense passou a se chamar Associação Sul do Rio Grande do Sul (ASRS), refletindo melhor sua abrangência territorial. Dentro da ASRS, o Ministério dos Desbravadores e Aventureiros tem sido uma peça-chave no trabalho com a juventude e as crianças. Atualmente, apenas na região da ASRS existem cerca de 90 Clubes de Desbravadores e 70 Clubes de Aventureiros, atendendo aproximadamente 3.500 meninos e meninas no total. São dezenas de cidades gaúchas – do litoral à fronteira, da capital aos pampas – onde toda semana crianças e adolescentes se reúnem em seus clubes para aprender habilidades úteis, estudar a Bíblia, prestar serviços comunitários e, claro, se divertir em meio a muita aventura sadia.


Referências (ABNT)

1 CAMPOREE no Brasil. Revista Adventista, Santo André, ano LXX, n. 12, p. 16–18, dez. 1975. Disponível em: https://acervo.cpb.com.br/ra.

ASSOCIAÇÃO GERAL DA IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA. Origem histórica dos Desbravadores. Disponível em: https://www.adventistas.org/pt/desbravadores/origem-historica/. Acesso em: 07 maio 2025.

IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA. Sobre nós – Aventureiros. Disponível em: https://www.adventistas.org/pt/aventureiros/sobre-nos/. Acesso em: 07 maio 2025.

MATTOS, Siloé de Almeida. História dos Desbravadores: salvando do pecado e guiando no serviço. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2020.

SILVA, Michelson Borges. A história da Igreja Adventista: dos pioneiros ao século XXI. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2015.

DIVISÃO SUL-AMERICANA DA IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA. Relatórios e materiais do Ministério Jovem. Disponível em: https://www.adventistas.org/pt/jovens/. Acesso em: 07 maio 2025.

SOBRETUDO. Manual Administrativo do Clube de Desbravadores da DSA. Edição oficial da Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Tatuí, SP: Editora Sobretudo, [s.d.]

RELATOS ORAIS dos clubes Minuano e Condor, fornecidos por líderes e membros atuais da ASRS, maio de 2025.

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